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  • Olavo Rosa Filho

O turfe que eu vivi: Virgílio Pinheiro Fº, glória e tragédia


Vindo do Paraná no fim da década de 40, era um jóquei desconhecido. Nem parecia um jóquei de tão alto, magro, estribava comprido, tinha uma posição nada clássica como a de um Rigoni (L.Rigoni). Rédeas bambas, todavia começou a chamar a atenção pelo domínio quase sobrenatural sobre o cavalo. Outros jóqueis de categoria até tinham problemas com cavalos que não largavam, queixudos, cerqueiros, manhosos, preguiçosos e quando chegavam na mão dele, se transformavam. Corria de ponta, no pelotão, atropelava com violência, num final escamado, parecia batido e voltava inexplicavelmente.

Tinha pouca instrução, mas era muito inteligente. Totalmente voltado para a profissão, conhecia TODOS os cavalos em Cidade Jardim (mais de 500, no PÊLO) e percebeu que a raia de grama dava vantagem para quem corria por fora e ganhou centenas de corridas por onde batizaram de Avenida Pinheiro Filho. Dizem, ganhava muito dinheiro com jogo; tinha gente de confiança que ia nas paradas com ele e se dava muito bem.

Ganhou três estatísticas, provas de Grupo, mas sua maior vitória foi com Narvik, no GP Brasil de 1959, batendo o espetacular Atlas, ganhador do Pellegrini sobre Farwell, do GP São Paulo sobre Gaudeamus e Escorial. Foi uma corrida inesquecível, Atlas nas pedras tinha dois corpos e, no disco, Narvik ganhou por paleta, com o Pinheirinho (Virgílio Pinheiro Fº) calmo e tranquilo.

Exercia uma liderança em São Paulo, onde haviam grandes jóqueis como Luiz Gonzales, Pierre Vaz, Dendico Garcia, Lodgar Bueno Gonçalves, Omario Reichel, até o fatídico 31 de agosto de 1963. Pinheirinho montava o cavalo Grego, em um páreo de 1.300m na grama estalando. Páreo cheio, cerca de 15 cavalos.

Conversei com dois jóqueis que montaram aquele páreo, e eles me contaram:

Grego, ligeiro, tomou a ponta e livrou dois corpos. Vinha galopando tranquilamente, de rédeas bambas, quando nos 1.000m sofreu uma fratura e rodou. Os cavalos que vinham atrás pisaram nele, vários deles. João Roldão, que ainda hoje é treinador (Jockey Club CT Campinas), vinha atrás entre os últimos quando viu aquela nuvem de poeira. Seu cavalo (Ciclo) instintivamente deu um "salto de 8m" e passou por cima daqueles cavalos que estavam no chão, um milagre. Carlos Lombardo, que venceu aquele páreo com Piperman, me contou que aquela fração de segundo ainda está na sua mente e ele até hoje não sabe como se salvou.

Daquele acidente, F.Costa ficou paralítico e M.Antunes sofreu fraturas.

Pinheirinho morreu à noite, no Hospital Beneficência Portuguesa, aos 34 anos. Seu corpo foi velado no hospital que existia em Cidade Jardim, perante centenas de fãs, colegas, diretores. Pierre Vaz tomou a palavra: "Com nosso colega aí neste caixão eu não tenho coragem de montar, e por isso peço aos senhores diretores que respeitem". E foi a única vez na história de Cidade Jardim que uma reunião foi cancelada pela morte de um profissional.

V.Pinheiro Filho é o terceiro no alto, da direita para a esquerda.

Hoje, 52 anos depois da sua morte, o Jockey Club de São Paulo (que já homenageou tanta gente sem nenhuma relação com o turfe) bem que poderia fazer uma homenagem a ele. Pelo menos, eu aqui, modestamente o reverencio como um dos grandes jóqueis brasileiros, que deixou uma história aos mais jovens e uma lembrança inesquecível aos veteranos.

Agradeço a João de Jesus Roldão, Carlos Lombardo e Hoover de Almeida (Bino), pelos depoimentos que ajudaram na redação deste artigo. Por Olavo Rosa Fº

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